A baixa libido é uma das queixas mais frequentes no consultório ginecológico e, muitas vezes, surge a dúvida: “Será que o anticoncepcional hormonal é o responsável?”
Essa é uma pergunta válida, mas que precisa ser analisada com cuidado. A sexualidade feminina é complexa e influenciada por múltiplos fatores — nem sempre o contraceptivo é o único ou principal responsável.
A libido feminina é multifatorial
Antes de atribuir a queda do desejo sexual ao uso do anticoncepcional, é fundamental investigar outras possíveis causas, como:
• Estresse e rotina intensa
• Estilo de vida e nível de atividade física
• Saúde mental (ansiedade, depressão)
• Qualidade do relaciona
• Uso de medicamentos, como antidepressivos
• Autoestima (por exemplo, insatisfação com o corpo ou sobrepeso)
• Doenças metabólicas
• Distúrbios do sono
Por isso, culpar apenas o anticoncepcional pode levar a conclusões precipitadas. A avaliação deve sempre ser individualizada e global.
O que dizem os estudos sobre anticoncepcionais hormonais e sexualidade?
Existem, sim, evidências científicas de que os contraceptivos hormonais combinados (estrogênio + progestagênio) podem influenciar a função sexual feminina — mas isso não significa que o impacto seja sempre negativo.
Uma revisão importante da literatura, “Combined estrogen-progestin oral contraceptives and female sexuality: an updated review”, demonstrou que algumas mulheres podem apresentar:
• Redução da libido
• Diminuição da lubrificação vaginal
• Alterações na resposta sexual
Por outro lado, o mesmo estudo aponta que algumas pacientes relatam melhora da vida sexual, especialmente quando o método reduz o medo de uma gravidez não planejada.
A principal conclusão dos autores é clara:👉 A resposta sexual feminina ao uso de anticoncepcionais hormonais é individual e multifatorial.
Como o anticoncepcional pode interferir na libido?
O principal mecanismo relacionado à possível redução do desejo sexual envolve alterações hormonais.
O estrogênio presente na pílula pode aumentar a produção de SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais). Essa proteína se liga à testosterona, reduzindo sua fração livre — que é a forma biologicamente ativa e importante para o desejo sexual.
Além disso, alguns anticoncepcionais com ação antiandrogênica podem diminuir a produção ovariana de hormônios androgênicos, contribuindo para alterações na libido em algumas mulheres.
Quais métodos interferem menos no desejo sexual?
Alguns métodos contraceptivos tendem a ter menor impacto ou nenhum impacto negativo sobre a libido, como:
• DIU de cobre
• DIU hormonal (Mirena®, Kyleena®)
• Progesteronas isoladas não antiandrogênicas, como: Desogestrel via oral e Implante subdérmico (Implanon®)
A escolha do método ideal deve sempre considerar o perfil hormonal, o estilo de vida e as queixas individuais da paciente.
Cada mulher é única
O que sempre reforço em consulta é: nem sempre existe uma única causa para a queda da libido. Cada mulher responde de forma diferente aos métodos contraceptivos.
Se você percebeu mudanças no seu desejo sexual após iniciar um anticoncepcional hormonal, procure uma avaliação ginecológica. Juntas, podemos investigar as possíveis causas e encontrar alternativas que respeitem sua saúde, seu corpo e sua sexualidade.